Estudo aponta aumento de risco em faixas exclusivas para motos e reacende debate sobre segurança viária
Um estudo divulgado nesta sexta-feira (29) lança novos questionamentos sobre a eficácia da chamada Faixa Azul, corredor exclusivo para motocicletas implantado em vias de grande circulação da cidade de São Paulo. Segundo a pesquisa, a medida pode aumentar em até 120% o risco de acidentes fatais envolvendo motociclistas em cruzamentos, além de estimular o excesso de velocidade nas vias onde foi adotada.
O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Instituto Cordial, com apoio da organização Vital Strategies. A análise se concentrou em trechos da capital paulista onde a Faixa Azul já está em funcionamento e avaliou tanto o comportamento dos condutores quanto os impactos sobre a segurança no trânsito.
De acordo com os dados, a velocidade média dos motociclistas nessas vias saltou de 58,3 km/h para 72,2 km/h após a implantação da segregação. Os pesquisadores atribuem esse aumento à sensação de maior segurança transmitida pelo corredor exclusivo, o que levaria muitos condutores a abusarem do acelerador. O estudo mostra ainda que 96% dos motociclistas trafegam acima do limite de 50 km/h e 81% ultrapassam os 60 km/h nas vias com a Faixa Azul.
Outro ponto de atenção destacado pelo trabalho é o efeito do corredor como um verdadeiro “canal de aceleração” no meio das quadras. Com menos interferências ao longo do trajeto, as motos chegam aos cruzamentos com maior velocidade e energia, o que, segundo os pesquisadores, explica o crescimento dos acidentes graves e fatais nesses pontos específicos da malha viária.
A Faixa Azul é uma das principais apostas da Prefeitura de São Paulo para conter o avanço das mortes de motociclistas no trânsito. O projeto teve início em 2022 e já soma mais de 200 quilômetros implantados na capital, servindo de inspiração para iniciativas semelhantes em cidades como Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte.
Apesar da expansão, o modelo ainda está sob avaliação em nível nacional. A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) aguarda evidências técnicas para decidir se a Faixa Azul deve ou não ser regulamentada oficialmente em todo o país.
O estudo também chama atenção para o cenário preocupante da segurança viária na capital paulista. A participação dos motociclistas no total de mortes no trânsito subiu de 32% em 2015 para 47% em 2024. Somente em 2025, 475 motociclistas perderam a vida em acidentes registrados na cidade.
Como encaminhamento, os pesquisadores recomendam reforço da sinalização horizontal, transições mais claras para entrada e saída dos corredores, fiscalização por velocidade média, além de maior atenção a pontos críticos com uso de radares fixos e portáteis. As conclusões reforçam que, sem ajustes e controle rigoroso, a Faixa Azul pode acabar ampliando riscos em vez de reduzi-los.
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