QUANDO A VERDADE SE TORNA QUESTÃO DE INTERPRETAÇÃO: LIVRO INVESTIGA AS RELAÇÕES ENTRE DISCURSO, FAKE NEWS E OS LIMITES DA VERDADE
QUANDO A VERDADE SE TORNA QUESTÃO DE INTERPRETAÇÃO: LIVRO INVESTIGA AS RELAÇÕES ENTRE DISCURSO, FAKE NEWS E OS LIMITES DA VERDADE
Em obra publicada pela Pontes Editores, o linguista Thiago Barbosa Soares questiona o relativismo interpretativo e examina como os discursos e os algoritmos participam da produção contemporânea de sentidos e da circulação da desinformação.
Até que ponto uma interpretação pode ser considerada legítima? Em uma sociedade na qual informações verdadeiras e falsas disputam espaço nas redes sociais, em ambientes políticos e nos meios de comunicação, a pergunta ultrapassa os limites da Linguística e alcança uma questão fundamental da vida contemporânea: como distinguir conhecimento, opinião, manipulação e mentira?
É justamente nesse terreno que se situa Os limites da interpretação: teorias do discurso, verdade e fake news, livro de Thiago Barbosa Soares, publicado em 2026 pela Pontes Editores. A obra propõe uma reflexão sobre os fundamentos da interpretação e sobre as condições que permitem compreender por que determinadas narrativas adquirem aparência de verdade, mesmo quando não encontram sustentação nos fatos.
O ponto de partida do livro é uma questão aparentemente simples, mas de consequências profundas: se os sentidos são construídos social e historicamente, isso significa que qualquer interpretação pode ser considerada válida? Para o autor, a resposta exige uma distinção fundamental. Reconhecer que a linguagem não possui sentidos absolutamente transparentes não significa admitir que todas as interpretações tenham o mesmo valor ou que verdade e mentira possam ser tratadas como categorias equivalentes.
A discussão ganha especial relevância diante da expansão das fake news. Em vez de compreendê-las exclusivamente como informações falsas que circulam de maneira ocasional, Soares procura demonstrar como a desinformação se articula a condições discursivas, ideológicas, políticas e tecnológicas. Nesse processo, a mentira não depende somente de seu conteúdo, mas também das formas pelas quais conquista credibilidade, mobiliza afetos, produz identificações e alcança diferentes públicos.
Um dos méritos da obra está no percurso teórico que constrói para enfrentar esse problema. O livro apresenta três importantes vertentes dos estudos do discurso: a materialista, associada a Michel Pêcheux; a arqueogenealógica, fundamentada nas contribuições de Michel Foucault; e a dialógica, desenvolvida a partir de Mikhail Bakhtin e seu círculo. Também incorpora contribuições de Dominique Maingueneau e Patrick Charaudeau, ampliando a discussão sobre as estratégias de construção da credibilidade, as cenas de enunciação e os contratos de comunicação.
Essa articulação permite compreender que os discursos não circulam em um espaço neutro. Eles são atravessados por relações históricas, ideológicas e sociais, além de dependerem de mecanismos de legitimação e reconhecimento. Na sociedade digital, tais mecanismos adquirem novas dimensões, uma vez que os algoritmos das plataformas participam da organização da visibilidade, da circulação das informações e da amplificação de conteúdos capazes de despertar reações emocionais.
Nesse sentido, uma das contribuições mais instigantes do livro consiste em aproximar as teorias do discurso de um problema que afeta diretamente o cotidiano: a transformação da atenção em recurso econômico e a utilização estratégica dos afetos na circulação de informações. O que faz uma notícia parecer verdadeira? Por que determinadas narrativas encontram adesão mesmo diante de evidências contrárias? Como os mecanismos digitais favorecem a repetição e a legitimação de conteúdos enganosos? Essas questões atravessam a reflexão desenvolvida pelo autor.
A obra também se destaca por não propor um retorno à ideia de que os textos possuem sentidos únicos, imutáveis e independentes de suas condições de produção. Ao contrário, sustenta a necessidade de reconhecer a pluralidade interpretativa sem abandonar os critérios de validade. O desafio está justamente em estabelecer limites que preservem a liberdade de interpretação e, simultaneamente, impeçam que a abertura dos sentidos seja utilizada como justificativa para a manipulação deliberada.
Ao final, o livro aponta para a responsabilidade do analista e do leitor diante dos discursos que circulam socialmente. Interpretar exige mais do que reconhecer palavras ou decodificar mensagens: implica considerar as condições históricas de produção, as posições dos sujeitos, as relações de poder e os mecanismos que conferem legitimidade aos enunciados.
Sobre o autor
Thiago Barbosa Soares é professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), no curso de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras. É doutor e mestre em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), possui formação em Letras, Psicologia, Filosofia e Ciências Humanas e é bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na categoria PQ-2. Lidera o Grupo de Estudos em Análise do Discurso e Texto (GEsTADI) e atua na pesquisa, na formação de pesquisadores e na edição de periódicos científicos. Sua produção intelectual concentra-se especialmente na Análise do Discurso, nas relações entre linguagem, mídia, história e sociedade e no desenvolvimento de propostas teórico-metodológicas para os estudos da significação.
Os limites da interpretação: teorias do discurso, verdade e fake news é uma leitura especialmente pertinente para pesquisadores, professores, estudantes universitários, profissionais da comunicação e leitores interessados em compreender os desafios contemporâneos da informação e da produção de sentidos. Mais do que apresentar um panorama de teorias do discurso, a obra coloca em discussão uma questão decisiva para o presente: se interpretar é uma atividade constitutiva da experiência humana, reconhecer seus limites também é uma forma de responsabilidade diante da verdade.

